A Grandeza da Imperfeição

Sabe por que a gente demora tanto para começar a cuidar do nosso dinheiro? Porque a gente idealiza o cenário perfeito.

Existe uma fantasia coletiva de que, para começar a investir, é preciso ter a vida financeira imaculada. Imaginamos que o “investidor de verdade” é aquele que tem zero dívidas, que sobra 30% do salário todo mês, que lê o site/blog/página de economia no café da manhã e que nunca, jamais, compra algo por impulso.

Esperamos sobrar uma quantia exata (“quando eu tiver R$ 5.000,00/ 10.000,00/ 500.000,00 parados, eu começo”). Esperamos entender tudo sobre aquele ativo complexo que está na moda. Esperamos a promoção no trabalho, o fim do financiamento do carro, ou a economia do país melhorar.

Criamos uma barreira de entrada intransponível para nós mesmos. E, enquanto esperamos todas as luzes verdes do semáforo acenderem ao mesmo tempo, o ativo mais valioso de todos escorre pelas mãos: o tempo.

O custo invisível da espera

O fator que mais enriquece (ou empobrece) alguém não é a taxa de juros, é o tempo de exposição aos juros.

Quem começa hoje com pouco – errando, aprendendo, colocando R$ 100,00 que seja – e ajusta a rota no caminho, chega muito mais longe do que quem espera 5 anos para começar “do jeito certo”, com uma grande quantia ou sem nenhuma dívida na vida.

O tempo é exponencial. O dinheiro que você deixa de investir hoje não faz falta apenas agora; ele deixa de se multiplicar pelos próximos 10, 20 ou 30 anos. O custo da inércia é, quase sempre, maior do que o custo de um investimento conservador.

A beleza do “feito” sobre o “perfeito”

A mensagem que quero deixar aqui é simples: existe grandeza na imperfeição.

Um plano financeiro “nota 7” que você consegue seguir por uma década é infinitamente superior a um plano “nota 10” que você abandona no terceiro mês porque é complexo demais.

Você não precisa começar com uma carteira de investimentos ultra diversificada em cinco moedas diferentes. Você não precisa de uma super planilha com macros e fórmulas complexas que calculem cada centavo gasto na padaria. Isso, muitas vezes, é apenas uma forma sofisticada de procrastinação.

A complexidade paralisa. A simplicidade executa.

Um pacto com o seu “eu” do futuro

Daqui a 10 anos, quando você olhar para trás, a sua versão do futuro não vai desejar ter sido perfeita. Ela não vai se importar se você começou comprando a ação X ou o fundo Y, ou se você começou com um pezinho ainda dentro de uma dívida.

O “você” de daqui a uma década vai desejar que você tenha sido constante. Vai desejar que você tenha feito algo, por menor que fosse, ao invés de ficar paralisado esperando um momento de calmaria que, sejamos honestos, pode nunca chegar. A vida acontece agora, com boletos, imprevistos e desejos. E é no meio dessa bagunça que a gente precisa começar a construir o futuro.

Um provérbio chinês (hoje, frase motivacional no Instagram) diz que o melhor dia para plantar uma árvore foi há 20 anos. O segundo melhor é hoje. Apesar de clichê, há verdade aqui – e aquela que nem sempre queremos enxergar.

Não espere a segunda-feira. Não espere o bônus. Comece imperfeito, comece pequeno, mas comece.